quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Relatos de folha de caderno

Todos os dias ela chegava em casa, chutando os sapatos sempre coloridos junto à porta, preparava sua xícara de café amargo e se largava no sofá com seu bloco de notas. Ela podia passar horas escrevendo sobre seu amor sem parar para respirar, mas ela gostava de se movimentar. Ora rolava no sofá, ora se sentava à mesa, ora caminhava. E eram páginas e mais páginas diárias de um amor inigualável e arrebatador. Depois do banho cantado, ela se sentava ao computador aguardando a chegada de seu querido, aproveitando para digitar suas obras do dia. Metodicamente coloria e selecionava as palavras que teriam destaque, tais como Paixão, Razão e Vida, dependendo do dia, e empenhava-se em formatar seu texto. Hora vai hora vem, o tec-tec do teclado ecoava pelas paredes do apartamento. Depois da imagem adequada, tudo era postado em seu blog privado e ela se retirava para um lanche. Os pés pendiam do sofá, ela adormecida, o relógio perdia a hora, porém ouvia-se um tilintar de chaves na fechadura. Ele finalmente adentrara, acendendo a luz, largando a mochila na cadeira e coçando a nuca. Uma ducha rápida e cama, ele roncava alto no quarto quando ela acordou. Ela andou cuidadosa até a cama, puxou os lençóis mais para junto de seu amado, afagando-o e admirando-o. Postou-se cuidadosamente ao seu lado e roçou os pés frios nos dele, imóveis, extasiando-se com o calor imediato que percorreu seu interior, então adormeceu sorrindo de alma e corpo. Mais um dia. E como ela era feliz, amando-o incondicionalmente.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Como não sentir falta do tempo dos tempos aonde palavras não eram necessárias? Quando o contato não era obrigação, mas uma necessidade? Mas como me foi dito, todo mundo vai e vem. Feito miragem num momento estão lá, no seguinte é só a lembrança. Ou quem sabe a ilusão.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Wondergirl

Era uma vez, uma garotinha que cruzou a toca do coelho e conheceu um mundo mágico. Ajudou personagens curiosos, perseguiu indivíduos de relógio, comeu cogumelos alucinógenos e jogou cricket com a rainha. Mas uma vez que ela estava em casa, aonde lagartas não falavam, gatos não sorriam e coelhos não se atrasavam, ela voltou a nadar em lágrimas - de tamanho real - e desde então nada mais a satisfez. Suas expectativas de reencontrar o mundo perdido a consumiram por anos e anos, e ela cresceu.
Alguns dizem que ela vai acabar cortando a própria cabeça, outros que ela buscará a nostalgia nos doces, mas eu, particularmente, desejo satisfação à insatisfeita.
Gostaria de um dia dividir um chá com ela, em seu aniversário, ou não, e convencê-la de que o meu mundo é igualmente maravilhoso, mesmo que em aspectos diferentes. Ou, pelo menos, é o que eu gosto de dizer à mim mesma.

sábado, 25 de dezembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Uma história verdadeira

O homem se ajoelhou aos pés dela, com o olhar marejado e borboletas no estômago, puxou o próprio coração do bolso interno do casaco e o ofereceu à mulher que o observava com um sorriso no rosto. Ela tocou o órgão quente com a ponta dos dedos frios e se ajoelhou também, o rosto perto do rosto do homem. Ele respirava rapidamente, e se o seu coração não estivesse na palma das mãos, com certeza estaria tentando sair pela boca. A mulher passou os dedos leves pelo cabelo do homem, acariciando sua nuca, e com o mesmo sorriso com o qual chegou, ela partiu, sem dizer nada ou sem ao menos olha-lo nos olhos. O homem permaneceu onde estava, no chão, com lágrimas rolando o rosto e um pulsar fraco e desritmado nas mãos trêmulas. A mulher e sua expressão da vinciana flutuaram para longe, guiadas por um par de olhos foscos e um coração impermeável.
E o mesmo aconteceu com a fila de homens que a seguiu, encantados com o seu ar misterioso, porém cegos o bastante para não reparar na falta de humanidade no fundo de seus olhos.