quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Uma história verdadeira

O homem se ajoelhou aos pés dela, com o olhar marejado e borboletas no estômago, puxou o próprio coração do bolso interno do casaco e o ofereceu à mulher que o observava com um sorriso no rosto. Ela tocou o órgão quente com a ponta dos dedos frios e se ajoelhou também, o rosto perto do rosto do homem. Ele respirava rapidamente, e se o seu coração não estivesse na palma das mãos, com certeza estaria tentando sair pela boca. A mulher passou os dedos leves pelo cabelo do homem, acariciando sua nuca, e com o mesmo sorriso com o qual chegou, ela partiu, sem dizer nada ou sem ao menos olha-lo nos olhos. O homem permaneceu onde estava, no chão, com lágrimas rolando o rosto e um pulsar fraco e desritmado nas mãos trêmulas. A mulher e sua expressão da vinciana flutuaram para longe, guiadas por um par de olhos foscos e um coração impermeável.
E o mesmo aconteceu com a fila de homens que a seguiu, encantados com o seu ar misterioso, porém cegos o bastante para não reparar na falta de humanidade no fundo de seus olhos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Encontrado entre as páginas amarelas de um best-seller qualquer

É com um gosto amargo na boca que eu admito desconhecer a sua real identidade, porém para mim o formato dos seus lábios se tornou inconfundível, bem como o ranger dos seus sapatos e o seu jeito de estalar-dedos. Queria poder ter dividido meus sorrisos contigo, até porque com você eu sorriria sem motivo, como já fiz algumas vezes ao te observar de longe. Seu nome do meio não me importa mais do que o mundo de coisas que você pode dizer ou esconder com um olhar, sua conta bancária não me excitaria mais que os seus lábios sussurrantes ao meu ouvido, a organização do seu apartamento não me intrigaria mais do que os seus olhares perdidos no meu rosto e nada se compararia a dividir minha respiração com você. Quero que saiba que por vezes você foi meu, de longe, ao existir, ao bocejar de manhã cedo e pronto, eu era sua, você era eu - por entre as estantes da biblioteca abarrotadas de histórias pra contar. Elas presenciavam mais uma, a nossa história de amor proibido. Minhas limitações me impediram de me apresentar pra você, mas eu sei que você já me notou, ou ainda notará, e se apaixonará pelo meu amor puro e incontestável. Quando você entra, o vácuo é imediato e minha visão embaça, mas eu luto contra os sintomas para não perder sequer um segundo de você. Você, minha contra-indicação e ao mesmo tempo, meu remédio.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Com o que é meu, eu faço o que quiser


Caminhava eu pela calçada agitada de um local que me trás lembranças, devaneando sobre de quem seria a culpa sobre o fim de assuntos antigos, quando esbarrei naquele garoto, magro, alto, preocupado com coisas fora de meu alcance. Ele e suas sobrancelhas arqueadas me gaguejaram um pedido tímido de perdão, e com um último olhar se perderam no fim da minha rua. Sua aflição me capturou de um jeito que eu não sei explicar, só sei que gastei muitos de meus disponíveis minutos em bolar situações e destinos para aquele garoto, e gostei da versão em que ele pisou na bola com um alguém especial, e está correndo até o canteiro para colher uma flor amarela e perseguir sua garota, olhando-a nos olhos e esclarecendo o assunto. Ela reluta, ele se aproxima, ela deixa escapar um meio sorriso, ele suspira de alivio com o coração leve, ambos se riem e tudo termina bem ao acabar bem. Meu garoto alto e tímido eu nunca mais vi, mas isso não o fez menos importante no meu dia, porque se ele tiver pensado em mim uma fração do quanto eu pensei nele, nós fizemos uma diferença na vida um do outro. E ao som de um violão recém-afinado, dedilhado suavemente numa praça antiga por um homem qualquer, nos esvaimos em poeira, nos misturando com as folhas da calçada, ao lado de um carro antigo. Nunca mais nos vimos.
Mesmo que só faça sentido pra mim.
E não que realmente faça.

domingo, 26 de setembro de 2010

A Place In This World


Ela, corajosamente, puxou o freio de mão e saiu, apontando os faróis para as colinas mais próximas, sem se importar de fato com a direção que tomava. Tudo era diferente, a placa do carro, o corte de cabelo e até seu nome, alguns acessórios que ela jurou nunca usar completavam o conjunto com a garrafa térmica de café, e toda a adrenalina seguia aos 115 km/h. Do capo do carro ela finalmente pôde encarar o horizonte sem peso nas costas, de um modo diferente, por mais que fosse o mesmo horizonte cuja imensidão a abençoou em todos os outros dias de sua vida. Longe de qualquer monstro de armário, até a atmosfera era diferente, e a almejada paz momentânea proveniente do isolamento a causava arrepios e a fazia sorrir um sorriso engraçado, de dentro pra fora.

domingo, 19 de setembro de 2010

Você não sabe o quanto dói, e há tanto tempo dói que coisas cada vez menores machucam. E é fácil não agüentar mais, é fácil querer fugir, complicado é encarar, não que eu o tenha feito.. e é fácil pra você se importar depois que eu cheguei ao meu limite, é fácil falar na hora em que você quer falar e me esperar responder, mas eu não tenho mais forças para responder, para respirar, para correr pra ti. Não dessa vez. Você vai ter que usar todas as letras comigo, como eu já fiz contigo, ser implícito e cabeça-dura não é fazer a sua parte, ser sincero com a gente é fazer a sua parte.
Eu te amo demais. A gente sabe que é amor quando dói.