quinta-feira, 5 de maio de 2011

Derradeira borboleta

Tenho medo de morrer poeta, ornamentando estrofes sozinha entre minhas paredes.
Eloqüente em falar ao vento, enquanto leiga da porta à fora.
Que de tanto fantasiar com vida, desaponta-se com cotidiano.

Se eu 'fizesse acontecer', não perdia madrugadas sonhando em celestes pautas de caderno.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Em mergulhos

Centenas de pessoas cruzavam as barracas da feira de antigüidades todos os fins de semana ensolarados. Altas, baixas, arrumadas ou não, todas giravam os produtos nas mãos, ou compravam, ou falavam, ou aproveitavam o ar fresco, somente, ja que o vento soprava quente, trazendo uma sensação ainda boa. Girando um par de Cruzados Novos sobre os dedos estava o rapaz, aquele que eu e meus botões resolvemos chamar de Francisco - Chico - com sua jaqueta acinzentada. Chico tinha um bigode metodicamente cultivado, para compensar os cabelos em cachos rebeldes que emolduravam seu rosto fino, mas o que mais me chamou atenção foram seus olhos. Seu belo par de olhos serenos, brilhantes, de jabuticaba, que fitavam tudo com uma curiosidade quase que infantil. E aquilo me conquistou. Há muito eu havia aprendido a reparar na malícia dos olhos alheios, mas Chico não tinha isso, não o meu Chico. Nós até que trocamos um, dois, três olhares, mas foi o tempo d'ele comprar suas moedas - grandes como monóculos - e sumir na multidão, tão abruptamente como apareceu, e largar meu peito aberto em saudade. E aí? Aí veio a chuva, lavando tudo. Porque talvez importe mais o sensorial que o racional. Que se dane o contexto, eu amei por 93 segundos, e me foi o bastante. As ruas de Belo Horizonte nunca me chamaram tanta atenção, e desde então, o cheiro de chuva me faz cócegas na barriga.

De amores eternos vive o homem, de atrações momentâneas vivo eu.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Be the change

E Março passou arrastado, despercebido. Você esperava algo extraordinário acontecer, dar um tapa na sua cara e mudar sua vidinha completamente. Te livrar da rotina. Tentou se agarrar a amores impossíveis, planos infalíveis e vontades desprezíveis, até finalmente se dar conta de que nada vai acontecer espontaneamente e te erguer do chão. Batalhar pelos seus sonhos parece difícil, eu sei, impossível as vezes, tornando uma espera cármica a opção mais fácil, mas bem la no fundo, tanto eu quanto você sabemos que esperar não dá em nada. Mantenha suas válvulas de escape por perto, mas se jogue no esforço, na tentativa, para enfim atingir algo, sua meta. Meta alcançada com seu trabalho, seu, de mais ninguem, teu mérito. Nada pior que auto-ajuda, mas fica valendo o lembrete, o contexto, eu, tal. Levante da cadeira e pare de postar, Anaïs. Pare de fingir.
Quando ser é mais difícil do que eu imaginava.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Relatos de folha de caderno

Todos os dias ela chegava em casa, chutando os sapatos sempre coloridos junto à porta, preparava sua xícara de café amargo e se largava no sofá com seu bloco de notas. Ela podia passar horas escrevendo sobre seu amor sem parar para respirar, mas ela gostava de se movimentar. Ora rolava no sofá, ora se sentava à mesa, ora caminhava. E eram páginas e mais páginas diárias de um amor inigualável e arrebatador. Depois do banho cantado, ela se sentava ao computador aguardando a chegada de seu querido, aproveitando para digitar suas obras do dia. Metodicamente coloria e selecionava as palavras que teriam destaque, tais como Paixão, Razão e Vida, dependendo do dia, e empenhava-se em formatar seu texto. Hora vai hora vem, o tec-tec do teclado ecoava pelas paredes do apartamento. Depois da imagem adequada, tudo era postado em seu blog privado e ela se retirava para um lanche. Os pés pendiam do sofá, ela adormecida, o relógio perdia a hora, porém ouvia-se um tilintar de chaves na fechadura. Ele finalmente adentrara, acendendo a luz, largando a mochila na cadeira e coçando a nuca. Uma ducha rápida e cama, ele roncava alto no quarto quando ela acordou. Ela andou cuidadosa até a cama, puxou os lençóis mais para junto de seu amado, afagando-o e admirando-o. Postou-se cuidadosamente ao seu lado e roçou os pés frios nos dele, imóveis, extasiando-se com o calor imediato que percorreu seu interior, então adormeceu sorrindo de alma e corpo. Mais um dia. E como ela era feliz, amando-o incondicionalmente.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Como não sentir falta do tempo dos tempos aonde palavras não eram necessárias? Quando o contato não era obrigação, mas uma necessidade? Mas como me foi dito, todo mundo vai e vem. Feito miragem num momento estão lá, no seguinte é só a lembrança. Ou quem sabe a ilusão.