sábado, 6 de agosto de 2011

Philophobia


À meia-luz dourada, todos os corpos são levados pela valsa em rodopios perfeitos e reverências precisas, se embaralhando. Por detrás das máscaras, homens e mulheres aproveitam os giros para dar espiadas e olhadelas uns nos outros, fervendo em segundas e até terceiras intenções para com seus próprios parceiros e os parceiros dos colegas. O salão está abafado, todos suam e arfam, a música fica mais forte e o cavalheiro em vermelho toma a mão da dama em preto. Ela, graciosamente, se esquiva, incitando a curiosidade dele. A perseguição ritmada começa, com piruetas e saltos ela foge, apesar de não tirar os olhos dele. Ele, cheio de floreios, a encurrala e a faz exibir um sorriso. Ele se ilumina, ela cora por trás da máscara.
Para todos no salão são evidentes os sentimentos entre o par, e é por isso mesmo que ela foge. Ela. A Rainha de Espadas nunca se entregaria à tais fraquezas, ela não cederia, e isso fazia o Rei de Copas se apaixonar ainda mais, correndo atrás dela com afinco.
Ela era forte demais pra se deixar bagunçar por um bigode bem feito. Ou pelo menos ela deveria ser. Tinha de ser.
Ele era charmoso demais para não conquistar qualquer donzela com um olhar. Com ela não seria diferente. Não poderia ser.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Calmaria rotineira

A garota folheia uma revista qualquer, sorridente.
Gritaria no andar de baixo.
A garota fecha a porta do quarto, decidida.
Monólogo no andar de baixo.
A garota rói as unhas, animada.
Silêncio no andar de baixo.
Suspiro.
Pratos são quebrados no andar de baixo.
A garota torce involuntariamente a revista, com alegria nos olhos.
Passos fortes no andar de baixo.
A garota amassa as páginas contra os ouvidos, satisfeita.
Urros no andar de baixo.
A garota morde o lábio, divertida.
Lágrimas no andar de baixo.
Os lábios sangram.


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ponto de fuga


Com esse meu espírito errante de cavaleiro, encaro o horizonte. Não sei qual o mistério por trás do horizonte, linear, estável, tranquilo, mas curiosamente sempre diferente. Deve ser a luz, tudo muda com a luz. Ou talvez seja sua profundidade infinita. Chega a ser assustador, o horizonte, de tempos em tempos. Para aqueles de mente inquieta, pelo menos; como eu, cavaleiro errante.
Tão incerto, vermelho, laranja, rosa, azul, cinza, o horizonte.
Surpreendente, apaixonante, aterrorizante.
O que me esperaria depois do horizonte? E como chegar lá? A cavalo? E meu cavalo cairia da beirada do mundo? Universo planificado.
Só sei que o persigo, desgarrada, na esperança de me encontrar no fim da jornada, mas ouvi dizer que horizonte é igual amanhã; nunca chega. Se nunca chega por que teimo em prosseguir? Só saberei quando chegar. Se chegar. Chegar. Horizonte acaba? Só se você parar de olhar. Mas ouvi que a gente tem que encarar os medos de frente, então não posso parar de olhar.
Declaro, a partir de hoje -então- ser uma encaradora de encantadores horizontes que teimam em brincar comigo. Traiçoeiros. Perfeitos. Distantes. Abstratos. Indescritíveis. Metafísicos.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Meu verde


Aumenta aí, é meu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Feelin' blue

Por que essas dores alheias me doem também, tanto? Não sei mais lidar com isso. Minha vez de cortar fora meu coração a canetadas. Caneta no papel, mais fundo, mais fundo, até que finalmente rasga. E me escorre azul-bic pelo caderno, intenso, denso, carregado de angústia com um sádico brilho plasmático. E alívio.
Já não me dói mais.
Estourei a carga; o azul escorre pelo piso, com respingos na parede, zombeteiros. A tinta espessa manchando tudo o que alcança, impregnando a ponta dos meus dedos. Até as marcas no papel dilacerado me encaram, eu não fiz por mal, eu só queria que a dor fosse embora. Por que riem de mim, por que me julgam? Desvio o olhar. Encaro um canto qualquer, abraçando o caderno ensopado, com cuidado. Azul na palma das mãos. Azul escorrendo dos olhos. Azul no meu coração.