Por que essas dores alheias me doem também, tanto? Não sei mais lidar com isso. Minha vez de cortar fora meu coração a canetadas. Caneta no papel, mais fundo, mais fundo, até que finalmente rasga. E me escorre azul-bic pelo caderno, intenso, denso, carregado de angústia com um sádico brilho plasmático. E alívio.
Já não me dói mais.
Estourei a carga; o azul escorre pelo piso, com respingos na parede, zombeteiros. A tinta espessa manchando tudo o que alcança, impregnando a ponta dos meus dedos. Até as marcas no papel dilacerado me encaram, eu não fiz por mal, eu só queria que a dor fosse embora. Por que riem de mim, por que me julgam? Desvio o olhar. Encaro um canto qualquer, abraçando o caderno ensopado, com cuidado. Azul na palma das mãos. Azul escorrendo dos olhos. Azul no meu coração.



