terça-feira, 7 de junho de 2011

Feelin' blue

Por que essas dores alheias me doem também, tanto? Não sei mais lidar com isso. Minha vez de cortar fora meu coração a canetadas. Caneta no papel, mais fundo, mais fundo, até que finalmente rasga. E me escorre azul-bic pelo caderno, intenso, denso, carregado de angústia com um sádico brilho plasmático. E alívio.
Já não me dói mais.
Estourei a carga; o azul escorre pelo piso, com respingos na parede, zombeteiros. A tinta espessa manchando tudo o que alcança, impregnando a ponta dos meus dedos. Até as marcas no papel dilacerado me encaram, eu não fiz por mal, eu só queria que a dor fosse embora. Por que riem de mim, por que me julgam? Desvio o olhar. Encaro um canto qualquer, abraçando o caderno ensopado, com cuidado. Azul na palma das mãos. Azul escorrendo dos olhos. Azul no meu coração.

domingo, 5 de junho de 2011


Se fome de felicidade matasse, eu já estava enterrada por inanição.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Amanhã, talvez, ou não

Sei que seremos 'eu e você', ainda que demore a chegar, e vai demorar. Nós dois ainda temos que mudar tanto. Crescer tanto. Em separado, para depois crescermos juntos. Sabe por quê? Porque eu não quero te perder quando a gente se permitir amar de novo.
Estou aqui lutando por nós, correndo atrás dos meus sonhos e me fortalecendo. Caso a gente se perca, eu vou saber sobreviver. Mas eu te quero tanto. Tenho medo desse amor ser utópico, e talvez seja mesmo, mas pelo menos eu tenho algo no que me agarrar caso meu cotidiano vá por água a baixo. Talvez um dia eu acorde e naturalmente perceba que a gente não passou de um 'momento' adolescente, com um quê de infantil, ainda. E tudo vai ficar bem. Porque eu amei do meu próprio jeito. Porque você derrubou a muralha que cercava meu coração temeroso e estendeu a mão pra ele. Fatos nos tornaram incompatíveis, mas a gente estranhamente continua se atraindo. Opostos pólos.
Bom será o dia em que alguém puder explicar minha vontade louca de deitar a cabeça no seu peito e simplesmente ficar lá, pra sempre. Respirando, ouvindo e existindo. Enquanto isso, recolho-me à minha loucura. Apesar de tudo -tudo- enquanto meu rosto repousa no seu, eu não preciso de mais nada. E não existe tempo.

Repetitivo.
Leve demais.
Tarde demais?



Derradeira borboleta

Tenho medo de morrer poeta, ornamentando estrofes sozinha entre minhas paredes.
Eloqüente em falar ao vento, enquanto leiga da porta à fora.
Que de tanto fantasiar com vida, desaponta-se com cotidiano.

Se eu 'fizesse acontecer', não perdia madrugadas sonhando em celestes pautas de caderno.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Em mergulhos

Centenas de pessoas cruzavam as barracas da feira de antigüidades todos os fins de semana ensolarados. Altas, baixas, arrumadas ou não, todas giravam os produtos nas mãos, ou compravam, ou falavam, ou aproveitavam o ar fresco, somente, ja que o vento soprava quente, trazendo uma sensação ainda boa. Girando um par de Cruzados Novos sobre os dedos estava o rapaz, aquele que eu e meus botões resolvemos chamar de Francisco - Chico - com sua jaqueta acinzentada. Chico tinha um bigode metodicamente cultivado, para compensar os cabelos em cachos rebeldes que emolduravam seu rosto fino, mas o que mais me chamou atenção foram seus olhos. Seu belo par de olhos serenos, brilhantes, de jabuticaba, que fitavam tudo com uma curiosidade quase que infantil. E aquilo me conquistou. Há muito eu havia aprendido a reparar na malícia dos olhos alheios, mas Chico não tinha isso, não o meu Chico. Nós até que trocamos um, dois, três olhares, mas foi o tempo d'ele comprar suas moedas - grandes como monóculos - e sumir na multidão, tão abruptamente como apareceu, e largar meu peito aberto em saudade. E aí? Aí veio a chuva, lavando tudo. Porque talvez importe mais o sensorial que o racional. Que se dane o contexto, eu amei por 93 segundos, e me foi o bastante. As ruas de Belo Horizonte nunca me chamaram tanta atenção, e desde então, o cheiro de chuva me faz cócegas na barriga.

De amores eternos vive o homem, de atrações momentâneas vivo eu.